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Danielle Davegna
35 anos, carioca e mãe do João Victor (11 anos e autista)
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quinta-feira

O que um autista nos pediria

01 - Ajude-me a compreender. Organize meu mundo e facilita-me ou antecipe o que vai suceder. Dá-me ordem, estrutura, e não caos.

02 - Não te angusties comigo, porque me angustio. Respeita meu ritmo. Sempre poderás relacionar-se comigo se compreender minhas necessidades e meu modo especial de entender a realidade. Não se deprima, o normal é que avance e me desenvolva cada vez mais.


03 - Não me fale demasiado, nem demasiado depressa. As palavras são "ar" que não pesa para ti, mas podem ser uma carga muito pesada para mim. Muitas vezes não são a melhor maneira de relacionar-se comigo.


04 - Como outros filhos, como outros adultos, necessito compartilhar o prazer e o gosto de fazer as coisas bem, mesmo que nem sempre o consiga. Faz-me saber, de algum modo, quando consigo fazer as coisas bem e ajuda-me a fazê-las sem erros. Quando tenho demasiadas falhas sucede que me irrito e termino por negar-se a fazer as coisas.


05 - Necessito de mais ordem do que você necessita, mais previsibilidade do meio, que você requer. Teremos que negociar meus rituais para conviver.


06 - É difícil compreender o sentido de muitas das coisas que me pedem para fazer. Ajuda-me a entendê-las, peça-me coisas que podem ter um sentido concreto e decifra-as para mim. Não permitas que me acomode e permaneça inativo.


07 - Não me invadas excessivamente. Às vezes, as pessoas são demasiadamente imprevisíveis, demasiadamente ruidosas, demasiadamente estimulantes. Respeita as distâncias que necessito, porém sem deixar-me só.


08 - O que faço não é contra você. Quando tenho uma zanga ou me golpeio, se destruo algo ou me movimento em excesso, quando me é difícil atender ou fazer o que me pede, não estou querendo te prejudicar. Já que tenho um problema de intenções, não me atribua más intenções!


09 - Meu desenvolvimento não é absurdo, embora não seja fácil de entender. Tem sua própria lógica e muitas das condutas que chamas "alteradas" são formas de enfrentar o mundo na minha especial forma de ser e perceber. Faz um esforço para compreender-me.


10 - As outras pessoas são demasiadamente complicadas. Meu mundo não é complexo e fechado, senão simples. Embora te pareça estranho o que te digo, meu mundo é tão aberto, tão sem dissimulações nem mentiras, tão ingenuinamente exposto aos demais, que é difícil penetrarmos nele. Não vivo em uma "fortaleza vazia", nem em uma planície tão aberta que pode parecer inacessível. Tenho muito menos complicações que as pessoas que são consideradas normais.


11 - Não me peças sempre as mesmas coisas nem me exijas as mesmas rotinas. Não tens que fazer-te autista para ajudar-me. O autista sou eu, não você!


12 - Não sou só autista. Também sou uma criança, um adolescente, ou um adulto. Compartilho muitas coisas das crianças, adolescentes ou adultos ditos "normais". Gosto de jogar e divertir-me, quero os meus pais e pessoas que me cercam, me sinto satisfeito quando faço as coisas bem é aquilo que compartilhamos que nos une.


13 - Vale à pena viver comigo. Poço dar-lhe tantas satisfações quantas outras pessoas, embora não sejam as mesmas. Pode chegar um momento em sua vida em que eu, que sou autista, seja sua maior, ou melhor, companhia.


14 - Não me agridas quimicamente. Se te dizem que tenho que tomar um medicamento, providencie que seja revisado periodicamente por um especialista.


15 - Nem meus pais nem eu tenho a culpa do que me passa. Tão pouco a têm os profissionais que me ajudam não serve de nada que os culpe. Às vezes, minhas reações e condutas podem ser difíceis de compreender ou afrontar, porém não é por culpa de nada. A idéia de "culpa” não produz mais que sofrimento em relação ao meu problema.


16 - Não me peças constantemente coisas do que sou capaz de fazer. Porém peça-me o que poço fazer. Dá-me ajuda para ser mais autônomo, para compreender melhor, porém não me dê ajuda demais.


17 - Não tens que trocar completamente sua vida pelo fato de viver com uma pessoa autista. Não me serve de nada que esteja mal, que te encerres e te deprimas. Necessito estabilidade emocional ao meu redor para estar melhor. Pensa que, menos ainda, seu par tem culpa do que me passa.


18 - Ajuda-me com naturalidade, sem convertê-lo em uma obsessão. Para poder ajudar-me, tenha seus momentos de repouso ou dedique as suas próprias atividades. Aproxime-se de mim, não se vá, porém não se sinta submetido a um peso insuportável. Em minha vida, tenho momentos maus, porém poço estar cada vez melhor.


19 - Me aceite como sou. Não condicione sua aceitação a que eu deixe de ser autista. Seja otimista sem fazer "novelas". Minha situação normalmente melhora, ainda que pôr hora não tenha cura.


20 - Ainda que me seja difícil comunicar-me ou não compreenda as sutilezas sociais, tenho incluso algumas vantagens em relação aos ditos "normais". Me custa comunicar, porém o não sei enganar. Não compreendo as sutilezas sociais, porém tão pouco participo das duplas intenções ou dos sentimentos perigosos tão freqüentes na vida social. Minha vida pode ser satisfatória se é simples, ordenada e tranqüila. Se não me pede constantemente e sou aquele que mais me custa. Ser autista é um modo de ser, ainda que não seja o normal. Minha vida como autista pode ser tão feliz e satisfatória como a sua "normal". Nessa vida, podemos encontrar-nos e compartilhar muitas experiências.